Emprego: 425 mil portugueses podiam e queriam trabalhar mais

Portugal tem muito mais gente do que se pensava com vontade ou capacidade de trabalhar. Bem mais do dobro, basicamente.

Afinal, em 2011, existiam 425 mil casos, entre trabalhadores a tempo parcial insatisfeitos com os seus horários magros de expediente (220 mil casos), pessoas que admitiram estar disponíveis, mas não conseguiram procurar trabalho (172 mil) e pessoas que procuraram, mas não tiveram possibilidade de agarrar logo o emprego (33 mil). Os números antigos apontam para um total de 184 mil casos, mostra o Eurostat.

Razão? O Instituto Nacional de Estatística (INE), que fornece os dados nacionais ao Eurostat, reformulou o inquérito ao emprego, conseguindo agora detetar um número muito maior de potenciais ativos e de pessoas que, mesmo trabalhando, estão insatisfeitas com as poucas horas laborais.

Considerando os dados trimestrais do INE (comparáveis) relativos a 2011, percebe-se que o fenómeno está a alastrar de forma significativa. Por exemplo, o grupo dos chamados inativos disponíveis – pessoas dispostas a trabalhar mas que não fizeram as diligências necessárias à luz dos novos critérios do INE – aumentou de 144 mil para 203 mil casos entre o primeiro e o último trimestre do ano passado. Uma subida de 41%. A maioria (60%) são mulheres.

Como se explica este tipo de afastamento do emprego? Os economistas referem um ambiente de crescente paralisia, quer das pessoas, quer das empresas.

Das empresas que não fecharam portas ou que não foram à falência, “a maioria” está bloqueada no acesso ao crédito ou defronta-se com uma procura anémica. As que exportam também estão manietadas pelo clima de grande constrangimento bancário. Logo, não contratam. E mesmo que façam entrevistas, vão recrutar muito menos do que antes da crise.

Esta tem sido a descrição feita por conhecedores do mercado, caso de António Saraiva da CIP (confederação da indústria) e de João Vieira Lopes (comércio e serviços).

E o que se passa do lado das pessoas? Nádia Simões, professora do ISCTE especialista em mercado de emprego, tem algumas ideias sobre o problema.

“Há muitas pessoas, cada vez mais, que hoje sentem não ter as competências exigidas pelas empresas que ainda recrutam”. “Estamos a falar de indivíduos que vieram de sectores de baixa empregabilidade, de empresas que entretanto desapareceram, passaram pelo desemprego e agora desistiram, mas não totalmente.”

A economista considera que a crise e a noção que o desemprego alto veio para ficar e que pode piorar  ainda mais (como dizem em uníssono governantes e analistas) faz com que os inativos com capacidade e vontade de trabalhar não possam virar costas ao mercado.

“Não podem fechar totalmente a porta, dizer simplesmente que não voltam a trabalhar”, considera Nádia Simões. “Um desemprego tão alto significa que é bem provável que haja mais gente na família sem trabalho”. “Muitas vão querer manter-se na fronteira da população ativa, pelo sim, pelo não”, acrescenta.

E dá um exemplo: “As donas de casa. São o exemplo de um grupo nessa transição. Foram donas de casa enquanto os restantes elementos do agregado familiar tiveram emprego. Agora têm de estar mais alerta, mais disponíveis para aceitar trabalho remunerado.”

Em Portugal o problema é grave. Mas o país não está sozinho neste subaproveitamento laboral. Bélgica, Chipre,  Dinamarca e Grécia também apresentam um alastramento preocupante do fenómeno.

fonte:http://www.dinheirovivo.pt/E

publicado por adm às 09:27 | comentar | favorito