Procurar emprego depois dos 50 anos

Vivemos numa época em que o mundo dos negócios vive obcecado com a juventude. Eu deveria saber. Eu costumava trabalhar no centro nevrálgico de uma das empresas mais orientadas para os jovens do planeta, a Nickelodeon. Parte da MTV Networks, o código não escrito de vestuário, aparência e comportamento tem um axioma inegociável: independentemente do tipo de trabalho que você faz, é essencial ter um aspeto jovem, ou pelo menos não muito quadrado. 

Estou convencida de que um colega meu da altura nunca conseguiu atingir o seu pleno potencial, simplesmente porque parecia demasiadamente um banqueiro conservador. Tradução: ele parecia um velho. Mas pelo menos tinha emprego. 

Durante a última década, o número de trabalhadores mais velhos desempregados aumentou 300%. Os trabalhadores com mais de 45 anos ficam mais tempo desempregados do que os mais jovens e as ações legais por discriminação por idade aumentaram 66% entre 1999 e 2011. Ainda assim, provar que se foi discriminado por idade no local de trabalho é muito, muito difícil de provar. Se você está à procura de um novo emprego e tem mais de 50 anos, o melhor que tem a fazer não é processar. É lidar com aquilo que tem da melhor maneira possível.

Neste mercado stressante, sem garantias de pensões ou redes públicas de segurança e consequentemente com a necessidade de todos nos mantermos produtivos tanto tempo quanto possível, há algumas coisas básicas que podem ajudá-lo.

Pense na indústria
A obsessão com a juventude não é um fenómeno único de empresas como a MTV Networks, focadas em programação para pessoas com menos de 30 anos. A tecnologia digital, um dos sectores que mais crescem e que mais têm lucrado no mundo, é popular entre os consumidores de todas as idades. No entanto, a Internet e as indústrias de software e eletrónica de consumo estão dominados por pessoas com menos de 40 anos. 

De acordo com Techies.com, a idade média num cargo de desenvolvimento de software em Silicon Valley é de 24 anos. Pelo que talvez não seja surpreendente, como revela a Academia Nacional de Ciências, que seja três vezes mais provável "os trabalhadores mais velhos no sector da tecnologia perderem os seus empregos em despedimentos coletivos ou layoffs do que os mais jovens”. 

Segundo uma pesquisa realizada pela revista Network World, apenas cerca de um em cada oito gerentes da área de tecnologia com 30 anos ou menos contratou alguém com mais de 40 durante o ano anterior.

Se está a apontar para um sector dominado por jovens, é bom conhecer as suas opções e probabilidades. E entenda que as descrições de trabalho que incluem expressões como "enérgico" e "disponível" podem ser código para "jovem".

Conheça a sua geografia - tanto organizacional como literal
Há diferenças abissais estereotipadas entre diferentes regiões, como aprendi quando fingi querer voltar ao trabalho empresarial depois de deixar crescer os cabelos brancos, como pesquisa para o meu livro sobre o envelhecimento. 

Uma das especialistas com quem conversei, Ann Carlsen, recrutadora nos sectores de telecomunicações e tecnologia com sede em Boulder, Colorado, foi absolutamente clara: Nas empresas da Califórnia "pessoas com mais de 40 estão fora." E se isso pode não ser uma verdade absoluta por exemplo em Connecticut, em qualquer outro sítio, garantiu-me, se eu quisesse mesmo reentrar no mercado de trabalho, devia preparar-me para um processo longo e frustrante. E isto foi antes da recessão. 

"Na sua idade", disse-me, arrasando os meus (pretensos) desejos de voltar a trabalhar a sério, "devia tentar ser consultora”. Por outras palavras, de acordo com Carlson, aos 50 anos a única pessoa para quem eu poderia trabalhar era eu própria.

A "geografia" organizativa também é importante - diretor de marketing vs. diretor financeiro. Os candidatos mais velhos têm de se perguntar: o atributo mais importante que devo mostrar é a competência ou a criatividade? E como posso transmitir essas qualidades? Por exemplo, uma mulher de cabelo em pé pintado de cor-de-laranja seria capaz de conquistar o cargo de COO? E alguém com um look extremamente conservador conseguiria tornar-se chefe de uma editora discográfica? A resposta é sempre não.

Pat Mastandrea, ex-COO da SKY, é hoje chefe do Grupo Cheyenne, uma empresa de recrutamento nova-iorquina que se especializa em colocar executivos de topo nas empresas de media, entretenimento e educação. Diz ela que a pressão para ser (ou pelo menos parecer) jovem é mais importante em determinados cargos. 

"Tive uma candidata da área de vendas que acordou um dia e percebeu que todos os seus colegas estavam na faixa dos 30, os seus clientes estavam nos 20 e ela já tinha 50 anos; então percebeu que havia falta de ligação e teve de mudar as áreas. Aceitar e adaptar-se ao envelhecimento não é tão fácil quando se fala de um cargo de vendedor."

Esteja ciente do seu aspeto
Perguntei a Carlsen se notava quaisquer diferenças básicas nos tipos de candidatos que diferentes indústrias procurar. “Cada vez mais empresas estão a apontar baterias a administrações cada vez mais jovens." Claro que os clientes não vão dizer diretamente que não aceitaram um dos potenciais candidatos porque era muito velho. Isso seria ilegal. "Em vez disso, eles vão defender que a pessoa 'não se adaptava bem à cultura da empresa' o que 'era demasiado qualificada – o que pode significar que essa pessoa não terá desafios à altura mas também pode simplesmente traduzir a falta de à vontade de um gestor em gerir pessoas mais velhas do que ele.

Mastandrea concorda que a discriminação por idade é difícil de detetar. "Alguns clientes nem sequer se apercebem das suas aversões ou têm consciência de que discriminam", diz. "Essa falta de consciência é o que torna a discriminação por idade tão complicada de provar.”

Mesmo assim, Carlsen diz que não interfere na aparência dos candidatos antes de uma entrevista de emprego. Ela acha que é importante que o cliente se confrote com o candidato real. No entanto, quando se é rejeitado algumas vezes eles próprios "tendem a descobrir que algo está mal e, por exemplo, a pintar os cabelos brancos”. 

E será que há mais exigência quanto à imagem das mulheres do que à dos homens? Duh. "As coisas são ainda mais difíceis para mulheres mais velhas. Elas têm de aparentar estar no mercado de trabalho, precisam de bons sapatos e acessórios, e de estar bronzeadas, com boa cara. Os homens [que dirigem as empresas] tendem a desprezar as mulheres mais velhas. Se o trabalho for em vendas ou em qualquer área com grande visibilidade, o problema é agravado. Se tiver duas mulheres candidatas a um lugar em vendas e uma é loira e está na moda enquanto a outra é desenchabida e deselegante, em momento nenhum há sequer uma sombra de dúvida sobre quem vai ficaqr com o emprego, independentemente da empresa em causa ou das capacidades e habilitações das candidatas", garante Carlsen.

Há fatores internos e externos que pesam na imagem que passa para fora – e há truques para parecer mais nova.

 

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    Endireite as costas. Parece estupidamente simples, mas acredite que nada o faz parecer mais velho do que uma má postura.

     

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    Seja fisicamente ativo. Há uma razão para os políticos subirem as escadas sempre rapidamente: mexer-se depressa fá-lo parecer mais ativo e jovem.

     

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    Faça um check up à sua imagem. O seu corte de cabelo é moderno? E as suas roupas? Não tente ser o que não é – parecerá falso ou mesmo triste. Mas se ainda usa aqueles chumaços à anos 80 talvez seja boa ideia desistir deles.

     

 

Apesar de eu sonhar com o dia em que Katie Couric, Diane Sawyer e Nancy Pelosi deixem os cabelos brancos crescer, se sentir realmente necessidade disso, pinte o cabelo.

Avalie sua capacidade de adaptação
Agora a parte mais difícil: as barreiras internas a uma aparência jovem e ativa. O estereótipo de uma pessoa velha é alguém que resiste a mudanças, é lento a aprender, menos produtivo e que terá menos anos na organização para compensar os custos da sua formação. Para contrariar estes contras, deve realizar uma autoavaliação fria e objetiva. Acha que corresponde a algum dos pontos focados deste estereótipo.

Se for assim, acabe com os problemas, um por um:

- Caso se sinta intimidado pela nova tecnologia, peça ajuda a alguém de fora do escritório. Faça experiências com os novos media - Twitter, Pinterest, o seu próprio blog no Wordpress. Quanto mais “brincar”, mais fácil será adaptar-se às formas modernas do mundo do trabalho. Ninguém precisa dominar todos os media ou plataformas tecnológicas, mas estar familiarizado com os mais populares irá dissipar o estereótipo do “fora do tempo”.

- Se sente que as suas capacidades e habilitações estão enferrujadas, inscreva-se num curso para complementar as suas lacunas.

- Crie uma rede de trabalho em que contacte com pessoas jovens. Passe tempo com eles e verá que aprende alguma coisa - e eles terão gosto na sua orientação.

Não é preciso conhecer todas as bandas novas ou filmes (o mercado é demasiado rápido e mutável para manter-se a par), mas mantenha-se a par da cultura atual. Um bom ponto de partida é ler o The Week ou sites como o HuffingtonPost.

É possível ir longe demais? 
Conheço uma ex-executiva de publicidade que tenta desesperadamente parecer jovem - lidera uma empresa de consultoria de sucesso. Ela diz que seus funcionários lhe compraram cartões com a gíria social para que não parecesse deslocada no Twitterverso - ou seja, velha. A sua equipa ensinou-lhe palavras e frases como "ThatshitCra" (abreviação de "essa merda é de loucos"). 

A mim, isto já me parece um exagero. Porém, numa época e num país cuja cultura é a cultura da juventude, tentar parecer jovem no trabalho pode ser mesmo uma necessidade. Ainda que isso me deixe um pouco triste.

 

Anne Kreamer foi vice-presidente executiva e diretora criativa do Nickelodeon e do Nick at Nite; é autora de Going Gray, What I Learned About Beauty, Sex, Work, Motherhood, Authenticity, And Everything Else That Matters e de It’s Always Personal.

FONTE:http://www.dinheirovivo.pt/G

publicado por adm às 23:26 | comentar | favorito