A realidade do desemprego

O arrefecimento do ambiente económico em toda a Europa e a recessão em que Portugal se encontra levariam facilmente à conclusão antecipada de que o desemprego em Portugal estaria a aumentar de forma constante, em linha com a tendência dos últimos meses. Porém, os números ontem revelados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostraram uma ligeiríssima quebra - de 12,4% nos primeiros três meses ao ano para 12,1% no segundo trimestre. Como hoje se explica no DN, esta queda é conseguida graças ao emprego sazonal que, tradicionalmente, sobe nesta altura do ano e também pelo facto de haver cada vez mais pessoas dispostas a trabalharem por menos dinheiro. O princípio é simples: mais vale um ordenado magro do que salário nenhum.

Este segundo factor é a prova de que está em curso um choque salarial, que é potenciado pelas medidas da troika com óbvios reflexos na competitividade. O aperto na economia, as regras mais duras no acesso ao subsídio de desemprego e ao rendimento social de inserção impõem um novo paradigma no mercado de trabalho.

Não tenhamos, porém, ilusões. O próprio ministro das Finanças, em Julho, tratou de ser realisticamente pessimista ao apresentar as previsões para o desemprego: 12,5% no final de 2011 e 13,2% no próximo ano, o que corresponderá a um pico de cerca de 750 mil de-sempregados. Isto é, passado o Verão, a dura realidade há-de voltar e o ambiente recessivo travará a criação líquida de emprego.

Para dar a volta à crise, há que reanimar a capacidade exportadora das empresas portuguesas e induzir um novo ciclo que permita resolver os problemas de tesouraria das PME, de modo a entrar numa trajectória de crescimento.

Sem este empenho, a crise social tenderá a agudizar-se e a temida contestação não deixará de sair à rua.

Pressa é má conselheira

Ajustiça britânica agiu com celeridade no rescaldo dos motins que abalaram os bairros degradados de várias cidades inglesas, mas a mão forte dos tribunais está a provocar celeuma. Dois homens foram condenados a penas de prisão por terem incitado à violência através do Facebook e houve condenações surpreendentes: um detido pelo roubo de garrafas de água que valiam quatro euros e outro por um gelado. As condenações do Facebook causaram sensação. Jordan Blackshaw, de 20 anos, convocou pela rede social uma manifestação em Norwich e teve a má ideia de ser o único a aparecer; Perry Sutcliffe-Keenan, de 22 anos, provocou um pânico na sua pacata comunidade, mas no dia seguinte, já na fase da ressaca, apagou a página. Os dois homens podem ficar na prisão quatro anos, dependendo do recurso.

A polícia teve de mobilizar forças para contrariar estes supostos ataques. Incitar à violência é crime grave. Mas os críticos estão incomodados com as sentenças, pois não houve tumultos, e os mesmos defensores lembram que se estes incidentes tivessem ocorrido na véspera (antes dos motins) os condenados teriam penas bem mais suaves. Roubar garrafas de água no valor de quatro euros ainda é furto, mas a severidade do Estado em relação a crimes deste teor é sinal de fraqueza. O líder conservador britânico, David Cameron, defende agora a mão pesada da justiça, mas já não consegue esconder que as autoridades tiveram mão demasiado leve para conter os distúrbios. Outros dirigentes lembram que os políticos não devem pressionar os juízes. Em Portugal, onde a justiça é mais lenta, chega a tribunal um caso semelhante, a envolver "alarme social": o espancamento de uma adolescente por outras adolescentes foi filmado e circulou nas redes sociais; o caso "alarmou" a sociedade, levando na altura um juiz a decidir de forma inédita prisão preventiva para uma jovem de 16 anos. A pressão mediática (repetição de imagens chocantes ou medo de motins) não pode ser mais forte do que a lei.

fonte:http://www.dn.pt/

publicado por adm às 13:37 | comentar | favorito